Recentemente, contratamos um cozinheiro freelancer para ajudar na produção.
Era alguém que ainda não conhecia a nossa forma de trabalhar. Poderia simplesmente chegar, fazer aquilo que sabia fazer e ir embora.
Mas aconteceu algo diferente.
Desde o início, demonstrou interesse em entender o formato de trabalho da casa. Respeitou os processos internos sem questionar. Procurou ser proativo sempre que solicitado — e, muitas vezes, sem sequer precisar ser solicitado.
Começou a perceber o que precisava ser feito.
E fazia.
Não demorou muito para que deixasse de ser apenas um freelancer e passasse a fazer parte fixa do time.
Não foi apenas pela técnica.
Foi pela atitude.
O currículo não conta tudo
Experiência técnica é importante.
Conhecimento é importante.
Bagagem profissional é importante.
Mas, ao longo dos anos, percebi que essas coisas não contam toda a história sobre um profissional.
Existe uma parte que não aparece no currículo.
Como essa pessoa se comporta quando ninguém está olhando?
É nas pequenas coisas que isso aparece.
Quando identifica algo que precisa ser feito e faz, mesmo sem receber uma ordem.
Quando percebe que um colega precisa de ajuda e se dispõe a ajudar.
Quando a operação está desfalcada e, em vez de simplesmente dizer “isso não é minha função”, procura uma forma de contribuir.
Quando recebe uma oportunidade e demonstra, através das suas ações, que valoriza aquela oportunidade.
É aí que começamos a conhecer verdadeiramente um profissional.
Vestir a camisa não é apenas estar presente
Existe uma diferença enorme entre presença e ação.
Uma pessoa pode estar fisicamente presente durante todo o expediente e, ainda assim, ignorar aquilo que precisa ser feito.
Vestir a camisa é diferente.
Quem veste a camisa age apesar das condições.
Não significa aceitar tudo.
Não significa trabalhar sem limites.
Não significa fazer o trabalho de todos.
Significa entender que existe algo maior do que a própria tarefa.
É perceber que, quando o negócio precisa, cada pessoa pode fazer a sua parte para que a operação aconteça.
E isso faz uma diferença enorme numa equipe.
“Isso não é meu trabalho”
Essa talvez seja uma das frases que mais revelam a cultura de uma organização.
Ela aparece com frequência em estruturas muito hierarquizadas, onde cada pessoa passa a olhar apenas para aquilo que está descrito como sua responsabilidade.
Recentemente, vivi uma situação em que um colaborador não quis realizar uma determinada tarefa porque, segundo ele, aquela tarefa pertencia a outra pessoa.
O que mais me chamou a atenção não foi a dúvida sobre quem deveria executar a tarefa.
Foi o fato de que ele poderia simplesmente ter procurado a outra pessoa, conversado, esclarecido a situação e trabalhado em conjunto.
Em vez disso, escolheu limitar-se ao seu espaço.
E existe uma diferença enorme entre ter responsabilidade sobre uma função e deixar de ter responsabilidade sobre o resultado da equipe.
Uma equipe não pode funcionar assim.
Quando a técnica vira ego
Também já encontrei excelentes profissionais tecnicamente.
Pessoas com grande experiência, conhecimento e técnicas muito apuradas.
Mas que não trabalhavam em equipe.
Pessoas que não vestiam a camisa da empresa, tinham atitudes egocêntricas e acreditavam que eram insubstituíveis.
Lembro-me de um caso em particular.
Um chef tinha acabado de começar a trabalhar na operação de um restaurante prestigiado. Na segunda semana, justamente no dia de maior movimento, com a casa cheia e lista de espera, decidiu não aparecer para trabalhar.
Para mim, aquele episódio dizia muito mais sobre o profissional do que todo o seu currículo.
Porque conhecimento técnico pode tornar alguém muito importante para uma operação.
Mas ninguém deveria acreditar que o negócio depende exclusivamente de uma pessoa.
Ser importante é diferente de ser insubstituível.
E uma equipe saudável precisa entender isso.
Mas comportamento pode mudar?
Eu acredito que sim.
Comportamentos são ações que refletem hábitos construídos ao longo do tempo.
Por isso, mudar um comportamento normalmente exige muito mais energia do que aprender uma nova técnica.
Mas isso não significa que a mudança seja impossível.
Quando uma pessoa já faz parte de uma equipe, acredito que devemos sempre considerar a possibilidade de desenvolvimento.
Conversar.
Orientar.
Dar feedback.
Acompanhar.
Criar oportunidades para que a pessoa perceba aquilo que precisa mudar.
Mas existe uma diferença importante:
comportamentos podem ser trabalhados. Valores e princípios não deveriam ser negociáveis.
E onde entra o líder?
Aqui está uma parte que considero fundamental.
Quando alguém da equipe erra, a primeira reação de um gestor não deveria ser procurar um culpado.
Deveria ser procurar entender.
O que aconteceu?
E depois perguntar:
Eu transmiti a informação de forma clara?
Eu acompanhei?
Eu ajustei quando percebi o problema?
Eu planejei corretamente?
Porque, muitas vezes, quando o liderado erra, existe também um erro de liderança.
O exemplo vale mais do que mil palavras.
Não adianta exigir da equipe uma atitude que o próprio líder não demonstra.
Se quero que as pessoas sejam responsáveis, preciso demonstrar responsabilidade.
Se quero que tenham iniciativa, preciso demonstrar iniciativa.
Se quero que trabalhem em equipe, preciso trabalhar em equipe.
Sempre que entro em um novo projeto, procuro primeiro cativar a equipe através do exemplo.
Quero que as pessoas percebam que podem contar comigo.
Que não estou ali apenas para supervisionar e cobrar.
Estou ali para fazer parte.
Afinal, o que é um profissional com boa atitude?
Para mim, é alguém que valoriza as oportunidades através de ações, e não apenas de palavras.
É alguém que percebe.
Que se envolve.
Que ajuda.
Que aprende.
Que assume responsabilidade.
Que entende que o resultado coletivo também é sua responsabilidade.
Por isso, se tivesse de escolher entre duas pessoas, uma que ainda não sabe fazer determinada função, mas demonstra boa vontade, e outra que domina tecnicamente o trabalho, mas demonstra má vontade, eu não teria muita dúvida.
Eu prefiro trabalhar com uma pessoa que tenha boa vontade e não saiba o trabalho do que com uma pessoa com má vontade que seja profissional.
Porque a técnica pode ser ensinada.
A experiência pode ser construída.
O conhecimento pode ser desenvolvido.
Mas a vontade de fazer parte, de contribuir e de fazer acontecer precisa vir de dentro.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores diferenças entre simplesmente ter um trabalho e fazer parte de um negócio.
No final, acredito que um bom profissional não é definido apenas pelo que sabe fazer.
É definido principalmente pelo que faz quando ninguém está olhando.


